Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?

Uma visão crítica sobre mais de uma década de discussão relacionada a indicadores Ambientais, Sociais e de Governança

Por Juliana Lopes

Quem tem mais de 30 anos deve lembrar-se da pergunta que dá título a este artigo e se consagrou na propaganda de uma marca de bolachas brasileira nos anos 90. Nas discussões sobre integração de questões ASG — Ambientais, Sociais e de Governança o chamado dilema Tostines em alusão à frase com que abrimos este texto por muito tempo intrigou analistas. Há os que defendem que as companhias melhor posicionadas no mercado acabam sendo por consequência as que mais investem em questões relacionadas à sustentabilidade. Mas há quem defenda que na verdade são as empresas mais sustentáveis as que oferecem a melhor relação de risco x retorno para investidores justamente por integrarem questões ambientais, sociais e de governança a sua estratégia.

A primeira vez que me deparei com essa discussão foi em 2008 em uma das minhas primeiras incursões jornalísticas no campo da sustentabilidade. Ricardo Voltolini da Ideia Sustentável me confiou a tarefa de escrever uma matéria especial para a Revista de mesmo nome com o intrigante tema: quanto vale ser sustentável?

Fiz um mergulho nos principais indicadores de sustentabilidade, Dow Jones Sustainability Index (DJSI), Índice de Sustentabilidade Empresarial, GRI, CDP e entrevistei pelo menos 20 especialistas, entre os quais Bob Willard, autor do livro The Sustainablity Advantage, e fundador do Future-Fit Business, que propõe indicadores orientados ao futuro.

Willard fez o que parecia óbvio, mas ninguém até então tinha ousado tentar. Não precisou criar uma nova teoria econômica nem mesmo desenvolver um sistema específico para mensurar o valor da sustentabilidade. Avaliou o impacto financeiro do investimento em sustentabilidade em questões-chave para o negócio e conseguiu demonstrar a correlação financeira da sustentabilidade a partir do aumento da reputação e da produtividade, valorização da marca e das ações, diminuição dos riscos do negócio, maior facilidade de financiamentos e atração/retenção de talentos entre outros benefícios associados a um comportamento responsável. Assim concluiu que, ao incorporar a sustentabilidade na estratégia do negócio, uma grande empresa pode alcançar até 38% a mais de lucro e uma pequena empresa, até 66%, no curto e médio prazos.

Passados mais de 10 anos, me vejo ao lado dos amigos veteranos no campo da sustentabilidade, avaliando essa última década. Apesar de todos os nossos esforços, ainda impera o modo tradicional de se fazer negócios (business as usual) e têm se multiplicado casos que demonstram o alto custo de não integrar questões ambientais, sociais e de governança à gestão.

Tendo a achar que ficamos presos ao dilema Tostines e nos distanciamos do que é realmente substancial, ou seja, transformar os negócios e a economia para livrar-nos de uma extinção programada da nossa espécie e de muitas outras mais.

Importantes pensadores da sustentabilidade também têm nos convidado a fazer uma avaliação dos indicadores de sustentabilidade construídos na última década. Estariam eles contribuindo para transformação dos modelos de negócios no sentido de uma economia regenerativa, mais próspera e justa?

Recomendo a leitura do artigo de John Elkington, criador do tripé da sustentabilidade, em que ele pede o recall do conceito. Também os convido a ler a análise da escritora Lorraine Smith em artigo intitulado ESG Data is Like Less Wife Beating.

Tragédias recentes como a de Mariana e Brumadinho me fazem crer que o problema não está na falta de métricas. Afinal, como Willard demonstrou é possível traçar a correlação financeira com questões de sustentabilidade, desde que isso seja prioritário para as empresas e seus stakeholders.

Em uma análise das atas do Conselho de Administração da Vale, Eduardo Carone revelou que existiam 18 menções a riscos cambiais e zero menções a riscos ambientais. Esses riscos existiam, mas foram ignorados, não por falta de métricas para mensurá-los. A meu ver as estruturas fragmentadas e altamente hierarquizadas das companhias acabam por intimidar e até desresponsabilizar os indivíduos de tomar decisões difíceis, mas necessárias para a resiliência dos negócios, da economia e da sociedade.

Com a cabeça imersa em planilhas e telas de computador por onde passam transações bilionárias, executivos, conselheiros e investidores se desconectam da realidade sem se dar conta muitas vezes em como elas afetam a vida de milhares de pessoas e podem comprometer a perenidade do próprio negócio.

Hoje, quem ousa subverter a lógica do curto-prazismo acaba penalizado. Mas por pior que seja a mensagem, matar o mensageiro nunca é a solução. Os questionamentos dos conselheiros, colaboradores, comunidades, investidores e demais stakeholders precisam ser acolhidos, pois esse rol ampliado de visões contribui com a gestão de riscos e oportunidades, proporcionando maior resiliência ao negócio, à economia e à sociedade como um todo. Isso nada mais é do que boa gestão.

Juliana Lopes é jornalista e gestora ambiental, fundadora da PulsarCom.

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