Enquanto a economia continuar ignorando a lógica da vida, o vírus no sistema somos nós

Por Juliana Lopes*

Em meio ao debate sobre as medidas mais eficazes para combate a pandemia do coronavírus, não tardou para que vozes se levantassem em defesa da economia. Até quando continuaremos sacrificando vidas por um modelo que, por ignorar a lógica natural, operando acima da capacidade de carga do Planeta, está fadado ao fracasso?

Nesse embate penso que devemos escolher a vida e se isso custar o colapso do nosso atual sistema econômico que assim seja. Isso daria espaço para emergência de uma sociedade que sustenta a vida, ou seja, que opera dentro da capacidade de carga do sistema de suporte vital, tanto em relação aos recursos utilizados quanto aos resíduos produzidos.

“Toda organização na qual a hierarquia confia a poucos a tarefa de decidir por muitos está inexoravelmente destinada a fracassar.” Essas são palavras de Stefano Mancuso, autor do livro “Revolução das plantas.” Segundo ele, na natureza, tomar decisões compartilhadas é a melhor garantia para resolver corretamente problemas complexos.

Por isso, arrisco dizer que o temido vírus do momento nos dá mais pistas de como sair dessa crise do que os economistas. A cada dia é um 7 x 1 diferente a favor do coronavírus. Eles invadem o organismo e infectam as células, transformando-as em uma fábrica de clones de mais vírus, ou seja, não dá para neutralizá-lo rapidamente. Os vírus são infinitamente mais resilientes do que qualquer solução que dispomos no momento. Os vírus sequer têm células, mas apresentam uma grande capacidade de sofrer mutações.

Os seres humanos também têm essa capacidade: a todo momento nossas células estão se renovando, sendo assim a única certeza que temos é a de mutação constante.

Eventos disruptivos como o que estamos vivendo levam embora as ilusões que construímos em torno de certezas e uma suposta estabilidade. Eles também abrem espaço para transformação profunda.

E já que as múltiplas crises que enfrentamos foram criadas por nós, também temos a capacidade de sair delas. O ser humano é uma espécie fascinante, a única em todo Planeta capaz de criar realidades imaginadas. Segundo o historiador Yuval Noah Harari, nos dividimos entre dois mundos: o objetivo, formado pela natureza, da qual fazemos parte, e um mundo ficcional, permeado de histórias criadas por nós, como estratégia evolutiva que nossa frágil espécie encontrou para cooperar em larga escala e empenhar esforços em torno de objetivos coletivos.

Dinheiro, economia, política, religião e tantas outras criações as quais dedicamos a maior parte de nosso tempo e energia vital não passam de histórias inventadas por nós. Essa me parece ser a raiz do problema e ao mesmo tempo da solução. Ao passo que avançamos na construção de narrativas que nos permitiram criar tecnologias das mais simples às mais sofisticadas, nos afastamos do mundo objetivo e nos esquecemos que somos parte da natureza.

E agora um vírus, essa ameaça invisível, vem nos lembrar o quanto nosso mundo de faz de conta nos torna extremamente vulneráveis. A lógica de nossa sociedade industrial que tudo fragmenta e diferencia nos impede de compreender as relações de interdependência.

Segundo divulgação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) pesquisas apontam que é a destruição da biodiversidade pela humanidade que cria as condições para o surgimento de novos vírus e doenças como o COVID-19, gerando  profundos impactos econômicos e de saúde tanto nos países  ricos como nos pobres[1]. De acordo com artigo na publicação Scientific American Brasil, “está emergindo uma nova disciplina, a saúde planetária, que se concentra nas conexões cada vez mais visíveis entre o bem-estar dos seres humanos com o estado de outros seres vivos, e até de ecossistemas inteiros”[2].

E já temos um manual de instruções completo, aprimorado ao longo de 3.8 bilhões de anos de inovação da natureza. Eis os princípios fundamentais dos sistemas vivos[3] que apontam caminhos sobre como lidar com o desafio da pandemia atual e outros que virão.

Redes: os sistemas vivos se comunicam entre si e compartilham recursos cruzando fronteiras.

Ciclos: os ecossistemas não geram resíduos; a matéria circula constante pela rede de vida.

Energia solar: por meio da fotossíntese, a energia solar orienta os ciclos ecológicos.

Parceria: a vida se espalhou pelo planeta não pelo combate, mas pela cooperação.

Diversidade: os ecossistemas alcançam a estabilidade por meio da diversidade – quanto mais diverso mais resistente.

Equilíbrio dinâmico: um ecossistema é uma rede em constante flutuação: todas as variáveis flutuam em torno de seus melhores valores; nenhuma variável individual é maximizada.

Este é o momento de trabalharmos para fazer emergir um novo futuro, baseado em uma economia regenerativa. Essa economia se caracteriza por servir as pessoas ao mesmo tempo em que contribui para a regeneração dos sistemas que mantêm a vida. Eles incluem processos naturais que geram alimentos e insumos; regulam as condições ambientais como a absorção de CO2 pela fotossíntese das florestas; regulação do clima; polinização de plantas; controle de doenças e pragas etc.

*Juliana Lopes é fundadora da PulsarCom. Gestora ambiental e jornalista e mestre em administração.

[1] https://nacoesunidas.org/surto-de-coronavirus-e-reflexo-da-degradacao-ambiental-afirma-pnuma/amp/

[2] https://sciam.uol.com.br/destruicao-de-habitats-cria-condicoes-ideais-para-o-surgimento-do-coronavirus/

[3] Fritjof Capra. 2002. As Conexões Ocultas – Ciência para uma Vida Sustentável.

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