Bioinovação: uma história de 3.8 bilhões de anos

O que Leonardo da Vinci, Nike, Natura, Patagonia, General Eletric e NASA têm em comum?

*Por Juliana Lopes e Roberto Strumpf

O que alguns ícones da inovação perceberam – de Da Vinci à GE – é que na natureza encontramos um acervo de soluções aprimoradas ao longo de 3,8 bilhões de anos de evolução.

São inúmeros exemplos de inovação bioinspirada: da descoberta de novos materiais à aerodinâmica de meios de transporte, como o trem-bala Shinkansen 500, que usando princípios de design copiados do bico do martim-pescador é mais rápido e silencioso além de consumir menos energia.

Leonardo da Vinci, por sua vez, desde criança sonhava em voar e para isso criou uma série de protótipos inspirados na estrutura dos pássaros, modelos que centenas de anos depois serviram de referência para invenções que mudaram a história da humanidade, como paraquedas, avião, helicóptero, entre outros.

Outro exemplo disruptivo vem das borboletas do gênero Morpho que podem ser reconhecidas pela sua cor azul única. Essa estratégia intrigou pesquisadores, pois não é baseada em pigmentos, mas em como a estrutura da superfície de suas asas difrata e espalha a luz.Esse princípio foi aplicado pela empresa de tintas automotivas ChromaFlair Colors.

Também existem pesquisas promissoras tentando criar uma versão sintética da seda de aranha, que tem resistência e tração semelhante ao aço, mas é tão flexível quanto a borracha e é produzida sem a necessidade de altas temperaturas . Em 2013, a empresa alemã AMSilk começou a produção da primeira fibra escalável com propriedades mecânicas semelhantes à seda de aranha natural, um biopolímero que pode ser utilizado em vários produtos de cosméticos a roupas. Neste ano, a Natura também lançou uma linha de produtos para cabelo inspirada na tecnologia da teia de aranha.


Os casos citados demonstram como a natureza é abundante em recursos e estratégias. Há 20 anos, Janine Benyus deu nome à inovação inspirada na natureza iniciando uma área do conhecimento chamada biomimética. O Biomimicry 3.8, organização fundada por ela, descreve três níveis de biomimética:

1. Aprendendo com os padrões da natureza;
2. Aprendendo com os processos da natureza; e
3. Aprendendo com a natureza no nível dos ecossistemas.

Assim, a biomimética dialoga com a visão de uma economia circular, baseada na imitação do padrão cíclico da natureza de fluxos de materiais com base em recursos de energia renovável, em ciclo fechado, sem desperdício.

Benyus e sua equipe levaram essa proposta para todo o mundo, inspirando estratégias de inovação nacionais e atuando com muitas organizações, entre as quais HOK, Nike, Natura, Patagonia, Seventh Generation, General Eletric e NASA.

Para além de uma lógica de produto

A mesa do escritório talvez seja o pior lugar para olhar o mundo. Ainda assim, é nesse ambiente que a maior parte das decisões é tomada e isso explica, em parte, as múltiplas crises que enfrentamos, seja de caráter econômico, ambiental, social, político e, sobretudo, ético.

Em um estudo realizado por pesquisadores do MIT, após uma bateria de 150 entrevistas com executivos, pesquisadores e cientistas, eles perceberam que as grandes descobertas eram quase sempre consequência de um momento de introspecção e ruptura com padrões e pensamentos pré-concebidos

Atividades na natureza nos permitem reconectar como o nosso lado mais criativo, essência da inovação. Além de proporcionar insights para projetos pessoais e profissionais, temos pistas para uma participação mais adequada nos sistemas que sustentam a vida. Para isso, é preciso uma visão holística das cadeias de valor, de modo que processos produtivos operem em alinhamento com leis naturais, que são cíclicas e regenerativas.

Há cada vez mais evidências de que essa é também a escolha mais inteligente a se fazer. Patentes, artigos acadêmicos e bolsas de pesquisa relacionados a tecnologias e negócios baseados na natureza aumentaram mais de cinco vezes desde 2000, segundo o Fermanian Business & Economic Institute. O Instituto estima que este campo poderá representar US$ 1,6 trilhão do PIB global até 2030. Investidores também começam a buscar opções de investimento com essa caraterística, sendo o Ethical Biomimicry Finance um dos exemplos mais notórios dessa tendência.

Uma visão norteadora para dar escala a tecnologias e negócios desse tipo consiste em uma economia circular baseada na imitação do padrão cíclico da natureza de fluxos de materiais com base em recursos de energia renovável, em ciclo fechado, sem desperdício. Isso passa por uma nova lógica de geração de valor econômico a partir dos fluxos da natureza, enquanto conservamos os estoques. No Brasil, a bioeconomia tem potencial de atrair US$ 400 milhões em investimentos para os próximos 20 anos e gerar mais de 200 mil empregos, segundo estudo da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI).
Assim, bioeconomias circulares podem consistir em um motor de inovação, geração de empregos e prosperidade para o século XXI.

*Entre os dias 27 e 29 de setembro, reunimos influenciadores e lideranças para aprender a partir da observação das estratégias da natureza no PlugIn PlugOut: workshop Sobre Inovação inspirada na Natureza, uma realização da Pangea Capital e da PulsarCom. Saiba mais.

Juliana Lopes, consultora associada da Pangea Capital e fundadora da PulsarCom;
Roberto Strumpf, sócio diretor da Pangea Capital.

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