Escolha a vida

Enquanto a economia continuar ignorando a lógica da vida, o vírus no sistema somos nós

Por Juliana Lopes*

Em meio ao debate sobre as medidas mais eficazes para combate a pandemia do coronavírus, não tardou para que vozes se levantassem em defesa da economia. Até quando continuaremos sacrificando vidas por um modelo que, por ignorar a lógica natural, operando acima da capacidade de carga do Planeta, está fadado ao fracasso?

Nesse embate penso que devemos escolher a vida e se isso custar o colapso do nosso atual sistema econômico que assim seja. Isso daria espaço para emergência de uma sociedade que sustenta a vida, ou seja, que opera dentro da capacidade de carga do sistema de suporte vital, tanto em relação aos recursos utilizados quanto aos resíduos produzidos.

“Toda organização na qual a hierarquia confia a poucos a tarefa de decidir por muitos está inexoravelmente destinada a fracassar.” Essas são palavras de Stefano Mancuso, autor do livro “Revolução das plantas.” Segundo ele, na natureza, tomar decisões compartilhadas é a melhor garantia para resolver corretamente problemas complexos.

Por isso, arrisco dizer que o temido vírus do momento nos dá mais pistas de como sair dessa crise do que os economistas. A cada dia é um 7 x 1 diferente a favor do coronavírus. Eles invadem o organismo e infectam as células, transformando-as em uma fábrica de clones de mais vírus, ou seja, não dá para neutralizá-lo rapidamente. Os vírus são infinitamente mais resilientes do que qualquer solução que dispomos no momento. Os vírus sequer têm células, mas apresentam uma grande capacidade de sofrer mutações.

Os seres humanos também têm essa capacidade: a todo momento nossas células estão se renovando, sendo assim a única certeza que temos é a de mutação constante.

Eventos disruptivos como o que estamos vivendo levam embora as ilusões que construímos em torno de certezas e uma suposta estabilidade. Eles também abrem espaço para transformação profunda.

E já que as múltiplas crises que enfrentamos foram criadas por nós, também temos a capacidade de sair delas. O ser humano é uma espécie fascinante, a única em todo Planeta capaz de criar realidades imaginadas. Segundo o historiador Yuval Noah Harari, nos dividimos entre dois mundos: o objetivo, formado pela natureza, da qual fazemos parte, e um mundo ficcional, permeado de histórias criadas por nós, como estratégia evolutiva que nossa frágil espécie encontrou para cooperar em larga escala e empenhar esforços em torno de objetivos coletivos.

Dinheiro, economia, política, religião e tantas outras criações as quais dedicamos a maior parte de nosso tempo e energia vital não passam de histórias inventadas por nós. Essa me parece ser a raiz do problema e ao mesmo tempo da solução. Ao passo que avançamos na construção de narrativas que nos permitiram criar tecnologias das mais simples às mais sofisticadas, nos afastamos do mundo objetivo e nos esquecemos que somos parte da natureza.

E agora um vírus, essa ameaça invisível, vem nos lembrar o quanto nosso mundo de faz de conta nos torna extremamente vulneráveis. A lógica de nossa sociedade industrial que tudo fragmenta e diferencia nos impede de compreender as relações de interdependência.

Segundo divulgação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) pesquisas apontam que é a destruição da biodiversidade pela humanidade que cria as condições para o surgimento de novos vírus e doenças como o COVID-19, gerando  profundos impactos econômicos e de saúde tanto nos países  ricos como nos pobres[1]. De acordo com artigo na publicação Scientific American Brasil, “está emergindo uma nova disciplina, a saúde planetária, que se concentra nas conexões cada vez mais visíveis entre o bem-estar dos seres humanos com o estado de outros seres vivos, e até de ecossistemas inteiros”[2].

E já temos um manual de instruções completo, aprimorado ao longo de 3.8 bilhões de anos de inovação da natureza. Eis os princípios fundamentais dos sistemas vivos[3] que apontam caminhos sobre como lidar com o desafio da pandemia atual e outros que virão.

Redes: os sistemas vivos se comunicam entre si e compartilham recursos cruzando fronteiras.

Ciclos: os ecossistemas não geram resíduos; a matéria circula constante pela rede de vida.

Energia solar: por meio da fotossíntese, a energia solar orienta os ciclos ecológicos.

Parceria: a vida se espalhou pelo planeta não pelo combate, mas pela cooperação.

Diversidade: os ecossistemas alcançam a estabilidade por meio da diversidade – quanto mais diverso mais resistente.

Equilíbrio dinâmico: um ecossistema é uma rede em constante flutuação: todas as variáveis flutuam em torno de seus melhores valores; nenhuma variável individual é maximizada.

Este é o momento de trabalharmos para fazer emergir um novo futuro, baseado em uma economia regenerativa. Essa economia se caracteriza por servir as pessoas ao mesmo tempo em que contribui para a regeneração dos sistemas que mantêm a vida. Eles incluem processos naturais que geram alimentos e insumos; regulam as condições ambientais como a absorção de CO2 pela fotossíntese das florestas; regulação do clima; polinização de plantas; controle de doenças e pragas etc.

*Juliana Lopes é fundadora da PulsarCom. Gestora ambiental e jornalista e mestre em administração.

[1] https://nacoesunidas.org/surto-de-coronavirus-e-reflexo-da-degradacao-ambiental-afirma-pnuma/amp/

[2] https://sciam.uol.com.br/destruicao-de-habitats-cria-condicoes-ideais-para-o-surgimento-do-coronavirus/

[3] Fritjof Capra. 2002. As Conexões Ocultas – Ciência para uma Vida Sustentável.

Perenidade dos negócios no século XXI

Por Gláucia Térreo, Maria Veloso e Juliana Lopes*

Conselho de Administração tem o dever fiduciário de zelar pela perenidade do negócio e essa tarefa inclui debruçar-se sobre aspectos ambientais, sociais e de governança, bem como os riscos e oportunidades relacionados

Vivemos tempos de rápidas mudanças em um mundo globalizado e interconectado, de modo que as organizações precisam considerar uma gama cada vez mais ampliada de fatores no seu planejamento e tomada de decisão. Esses fatores incluem macrotendências socioeconômicas ambientais diversas que vão desde mudança climática, instabilidade social, desemprego, terrorismo até consequências adversas do avanço da tecnologia digital, riscos globais apontados pelo Fórum Econômico Mundial em seu relatório anual de 2020. Diante disso, considerar aspectos ambientais, sociais e de governança (ASG) no planejamento e tomada de decisão se torna fundamental para assegurar a solidez e perenidade dos negócios no curto, médio e longo prazo.

Como guardião da boa gestão e da perenidade do negócio, o Conselho de Administração precisa tomar conhecimento e se apropriar de informações relacionadas a aspectos ASG. Esse foi um dos apontamentos de uma pesquisa encomendada pela Global Reporting Initiative – GRI que ouviu 18 profissionais de sustentabilidade e conselheiros de administração de empresas brasileiras de diversos setores.

As conclusões dessa pesquisa estão disponíveis no estudo “ASG como estratégia para perenidade dos negócios no século XXI: perspectivas de profissionais de sustentabilidade e conselheiros de administração”, lançado em outubro de 2019 no GRI Summit: a visão dos stakeholders.

Um dos apontamentos da pesquisa é que não basta ter acesso a informações e relatórios sobre sustentabilidade. Os conselheiros de administração precisam ter conhecimento próprio sobre aspectos ASG para serem proativos e capazes de confrontar dados e analisar como esses aspectos podem se materializar em riscos e oportunidades para o negócio.

A pesquisa mostrou também que para o entendimento de aspectos ASG como estratégicos por parte dos conselheiros de administração é necessário uma mudança de paradigma e normalmente resulta da pressão de stakeholders externos, sendo investidores o grupo com maior poder de influência. Cada vez mais investidores desempenham papel central nas questões climática, por interesse em “de-risk”, pressionando por transparência, divulgação e apoiando os planos de descarbonização corporativa de longo prazo.

Essa pressão tem ocorrido, sobretudo, depois de eventos catastróficos como as de Mariana e Brumadinho, que resultaram justamente por deficiência no processo de gestão de riscos e pouca apropriação dos tomadores de decisão em diferentes níveis das companhias principalmente em relação a riscos territoriais e relacionados aos aspectos, ambientais, sociais e de governança.
As experiências compartilhadas pelos participantes da pesquisa mostram que quando o risco se materializa em impacto negativo, como no caso desses eventos catastroficos, há importante lições aprendidas, que direcionam para uma maior integração dos aspectos ASG nas decisões e estratégia. Um olhar holístico sobre os riscos do negócio mostra cenários que prepara para as crises “remotas” ou de baixa probabilidade mas com alto impacto.

Não há dúvida que uma gestão de riscos holística e estratégica nas empresas tem o potencial de antecipar esses riscos e preparar a organização a partir de ações mitigadoras, adaptativas e emergenciais aos riscos e, ao mesmo tempo buscar oportunidades. Para isso, é crucial que a primeira linha de defesa, formada pela diretoria executiva e operacional, tenha essas questões como prioridade, bem como estejam mais atentas ao que acontece em campo (chão de fábrica). Ao mesmo tempo, se o Conselho de Administração tiver uma visão estratégica sobre esses temas ASG pode demandar e confrontar informações, uma vez que seu papel é zelar pela perenidade do negócio, enquanto executivos muitas vezes têm foco maior nos resultados de curto prazo.

Em resumo, os resultados dessa pesquisa apontam que a conexão de aspectos ASG com o negócio ainda depende de processo de aprendizado por parte dos Conselhos e da própria organização como evolução da sua curva de maturidade.

Os conselheiros têm um importante papel de entender as transformações globais, os riscos e oportunidades para os negócios, bem como conduzir estratégias e compromissos que combinem os interesses e as necessidades de um universo mais amplo de partes interessadas e críticas para organização (incluindo shareholders e o ambiente) e em garantir um gerenciamento de riscos que considere aspectos ASG, além de reduzir usos e impactos a fim de proteger e integrar valor e assim assegurar a perenidade e sustentabilidade do negócio.

Para isso, os questionamentos dos conselheiros e das partes interessadas precisam ser acolhidos, pois esse rol ampliado de visões contribui com a gestão de riscos e oportunidades, proporcionando maior resiliência ao negócio, à economia e à sociedade como um todo. Isso nada mais é do que a velha e boa gestão: ética, transparente e comprometida com o negócio e a sociedade

Gláucia Térreo, diretora da GRI no Brasil
Maria Veloso, diretora da JVE Consultoria
Juliana Lopes, fundadora da PulsarCom

Navegando em mares revoltos

O que podemos observar em termos de tendências e sinais de mudança nesta década que se inicia

Juliana Lopes e Roberto Strumpf*

Publicado originalmente em Pangea Capital

Em tempos de transição como o que vivemos, caracterizado ainda por muita confusão e instabilidade, a capacidade de observar tendências e sinais de mudanças torna-se crucial para traçar estratégias tanto no âmbito pessoal quanto profissional. Por isso, convidamos você a fazer esse exercício de reflexão conosco a partir de alguns acontecimentos dessas primeiras semanas de 2020 que relacionamos a seguir.

1. A nova ordem é regenerar

Em janeiro de 2020, a Volans e a EcoVadis, lançaram o estudo “Procuring a regenerative economy”[1], como resultado do trabalho da iniciativa Tomorrow’s Capitalism, focada no papel da liderança corporativa e como as empresas podem promover ativamente a mudança sistêmica. As conclusões desse trabalho apontam para uma evolução progressiva da agenda de negócios: de compliance para resiliência e regeneração. A economia regenerativa é caracterizada como aquela que serve as pessoas[2] e contribui para a regeneração dos sistemas que mantêm a vida. Eles incluem processos naturais que geram alimentos e insumos; regulam as condições ambientais como a absorção de CO2 pela fotossíntese das florestas; regulação do clima; polinização de plantas; controle de doenças e pragas etc.

Entre os destaques deste estudo, está um caso brasileiro com o selo Origens Brasil e a experiência de venda de orgânicos à preço justo do Instituto Feira Livre. Entre as recomendações do estudo, destaca-se a necessidade de redefinir a lógica da prática de compras de uma abordagem linear da cadeia de valor, em que os fornecedores são tratados como um custo externo a ser minimizado, para a criação de valor nos sistemas biológicos, sociais e industriais. Para que isso seja possível, profissionais de compras precisam ser incentivados a priorizar os resultados sociais e ambientais – juntamente com as metas financeiras – e serem recompensados por isso para superar a atual mentalidade centrada apenas no preço.

2. Integração de questões Ambientais, Sociais e de Governança (ASG), o novo normal

As questões ASG no centro das discussões do Fórum Econômico de Davos, que, em sua edição em 2020, resgatou a ideia de capitalismo de stakeholders, uma evolução do “capitalismo shareholder”, voltado apenas para o interesse dos acionistas. Trata-se de voltar os interesses das empresas ao “stakeholder”, ou seja, a qualquer um que dependa — diretamente ou não — do sucesso da companhia. Isso inclui acionistas, funcionários, a comunidade local e outras empresas na cadeia produtiva. Essa não é uma ideia nova. Ela foi descrita por Klaus Schwab pela primeira vez em 1971, culminando com a criação do Fórum Econômico Mundial com o objetivo de ajudar lideranças empresariais e políticas a aplicá-lo. Mas precisou que jovens em manifestações por todo o mundo lembrassem esses representantes do senso de urgência de agir diante de desafios globais como a mudança do clima. Por isso, o capitalismo de stakeholder foi destaque no Manifesto de Davos por uma melhor forma de capitalismo novamente na edição de 2020, o que pode ser observado no Manifesto de Davos[3].

Em resposta a pressão da sociedade, entre a comunidade financeira, ganha corpo um movimento por uma nova economia. Os investidores começam a se dar conta de que ações prejudiciais à sociedade também prejudicam os negócios e destroem valor para os acionistas. Essas foram palavras de Larry Fink, CEO da BlackRock, maior investidor institucional do mundo, que em sua carta anual às empresas investidas destacou a sustentabilidade como novo padrão de investimento. Também anunciou o compromisso da firma de integrar aspectos ambientais, sociais e de governança integralmente à gestão dos portfólios e ativos até o final de 2020.

Fink, também destacou que “os investidores estão procurando entender tanto os riscos físicos associados às mudanças climáticas, quanto as formas pelas quais as regulamentações terão impacto nos preços, custos e demanda em toda a economia.”[4]

Essa tendência também foi apontada no State of Green Businness 2020[5], relatório anual de tendências da GreenBiz, que destacou a mensuração de riscos físicos e de transição associados às mudanças climáticas.

3. Remoções de carbono, uma nova moeda

Relatórios recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas deixaram claro que a redução de emissões por si só não é suficiente – também precisaremos remover bilhões de toneladas de gases de efeito estufa da atmosfera para evitar uma mudança climática irreversível. Essa é uma das tendências destacadas no State of Green Business 2020. “A ideia de que as empresas podem reduzir suas pegadas de carbono pagando outras organizações para reduzir as emissões de gases do efeito estufa tem cerca de duas décadas. Mas o uso de novas tecnologias e a ênfase na remoção de CO2 da atmosfera ao invés de apenas reduzir as emissões, juntamente com a chegada de novos compradores, a maioria notadamente da indústria da aviação, trarão grandes mudanças para o mercado de compensações de carbono em 2020 e adiante”, aposta o estudo.

Ainda nesta década, a discussão sobre sustentabilidade precisará avançar no sentido da transformação efetiva dos sistemas econômico, social e político, de modo que os negócios prosperem por causa – e não apesar de – seu compromisso com a criação de valor: econômico, social e ambiental. Assim, cada vez mais as empresas serão avaliadas pela sua capacidade de gerar benefícios para a sociedade e o ambiente, em processos que levem em consideração as demandas das múltiplas partes interessadas, o que inclui as pessoas e os ecossistemas, responsáveis pelos processos naturais que sustentam a vida.

Juliana Lopes, fundadora da PulsarCom e Roberto Strumpf, sócio diretor da Pangea e consultor associado da PulsarCom.

[1] https://volans.com/wp-content/uploads/2020/01/Procuring-a-Regenerative-Economy-FINAL.pdf [2] https://medium.com/age-of-awareness/towards-a-regenerative-economy-bf1c2ed6f792 [3] https://medium.com/age-of-awareness/towards-a-regenerative-economy-bf1c2ed6f792 [4] https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/01/14/ceo-da-blackrock-divulga-carta-e-anuncia-mudanca-no-padrao-de-investimento.ghtml [5] https://www.greenbiz.com/webcast/state-green-business-2020

Carbon farming

Que tecnologia seria capaz de capturar carbono da atmosfera, fixá-lo em produtos de interesse econômico, gerando como subproduto água e oxigênio?

Por Juliana Lopes e Roberto Strumpf*

Publicado originalmente em Pangea Capital

Se tem um tema que conecta a todos nós é a comida ou a falta dela. A segurança alimentar, ou seja a capacidade de produzir ou ter acesso a alimentos em quantidade e qualidade suficientes, tem ditado o rumo da humanidade desde os seus primórdios e continua até hoje no centro de grandes disputas comerciais e políticas. Em tempos de crise climática nos vemos diante daquele que consiste no maior desafio e também na maior oportunidade do século XXI: alimentar uma população que, em 2050, vai chegar a 9.2 bilhões de pessoas e ao mesmo tempo estabilizar o clima do Planeta[1].

Desde a Revolução Industrial, temos tirado carbono das profundezas da terra para lançá-lo na atmosfera em quantidade sem precedentes devido ao aumento vertiginoso do consumo de combustíveis fósseis, cuja queima tem como resultado os gases de efeito estufa (GEE). Assim, devido à ação humana, registramos aumentos recordes na temperatura média global, desestabilizando sistemas que sustentam a vida no Planeta há bilhões de anos, entre os quais a regulação climática. Se as emissões continuarem subindo, vamos chegar a um patamar de 2ºC a 4ºC adicionais na temperatura média global até 2050. Para entender melhor o impacto disso, basta lembrar como nosso corpo reage a um estado febril. Com o aumento de um grau, muitas funções do nosso organismo já ficam comprometidas e uma febre de dois graus pode levar-nos à morte. Com o Planeta não é diferente.

Para evitar essa mudança climática perigosa e irreversível, os cientistas recomendam esforços para reduzir as emissões de carbono em 50% até 2030, alcançando emissões neutras ainda neste século. Em outras palavras, além de reduzir emissões de carbono precisaremos desenvolver formas de removê-lo da atmosfera.

Agora, imagine se existisse uma tecnologia capaz de capturar carbono da atmosfera, fixá-lo em produtos de interesse econômico, gerando como subproduto água e oxigênio. Pois essa tecnologia existe e está bem debaixo do nosso nariz… literalmente. De tão óbvia, ela vem sendo ignorada. Se estamos respirando agora e nos alimentando é porque existe uma sofisticada tecnologia de ciclagem de carbono na natureza, que por meio da ação de microorganismos e da fotossíntese das plantas, devolve nutrientes para o solo, fixa carbono e ainda produz oxigênio e água.

Tudo o que precisamos fazer para dar escala a essa tecnologia é trabalhar a favor dos sistemas que sustentam a vida no Planeta há bilhões de anos. Esse é o princípio norteador da agricultura regenerativa caracterizada por práticas que contribuem para:

1. Reconstrução, fertilidade e saúde dos solos

2. Infiltração e retenção de água.

3. Melhorar e conservar a biodiversidade.

4. Saúde dos ecossistemas, sua capacidade de auto-renovação e resiliência

5. Sequestro ou captura de carbono da atmosfera

E que práticas são essas que caracterizam a agricultura regenerativa? Segundo Torri Estrada, diretor executivo Carbon Cycle Institute (CCI), existem em torno de 36 práticas[2] que contribuem para o chamado cultivo de carbono, orginalmente conhecido como carbon farming, que consiste justamente no sequestro de carbono, item 5 da lista acima, mas que contribui também para os outros aspectos citados. Entre elas estão técnicas como o plantio direto e sistemas de produção agroflorestais, que seguem a lógica da floresta combinando espécies de variados extratos vegetais que se beneficiam mutuamente a fim de aumentar a fertilidade e saúde dos solos. Isso é possível graças à produção de matéria orgânica em grandes quantidades para manter o solo protegido, reduzindo a necessidade de fertilizantes e defensivos químicos a base de petróleo.

O recente Relatório Especial do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sobre uso do solo, lançando em agosto de 2019, conclui que atividades agroflorestais, práticas agropecuárias de baixo-carbono ou regenerativas podem contribuir com a redução de até 10 GtCO2e por ano até 2050, o que equivale a 20% das emissões antropogênicas[3].

Segundo o Projeto Drawdown, que se apresenta como “o plano mais abrangente já proposto para reverter o aquecimento global”, o setor de alimentos pode contribuir com 30.6% das reduções de emissões de carbono necessárias para limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC. A Tabela 1 mostra as faixas de remoção de carbono por hectare ao ano para diferentes práticas regenerativas. Os tipos de seqüestro incluem carbono orgânico do solo (SOC), biomassa acima do solo (AGB) ou ambos. Essas estimativas são apresentadas em emissões de carbono equivalentes, considerando dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O)[4].

TABELA 1: TAXAS DE REMOÇÃO (Em toneladas métricas de carbono equivalente por hectare por ano)

© 2017 Project Drawdown

No livro Drawdown, de autoria de Paul Hawken, são apresentadas 100 Iniciativas para Resolver a Crise Climática, entre elas está a experiência brasileira da Fazenda da Toca de agrossilvicultura multiestratficada. Com suas muitas camadas de vegetação, um hectare de agrossilvicultura multiestratificada pode alcançar taxas de sequestro de carbono comparáveis às do reflorestamento e restauração florestal – 6,9 toneladas por hectare por ano, em média – com o benefício extra de produzir alimentos. A experiência da Fazenda da Toca, também foi retratada como um estudo de caso do Projeto Verena, do WRI. Mais recentemente a Fazenda da Toca se lançou em uma nova frente com a start-up Rizoma, voltada a recuperação de áreas de pasto degradadas por meio da implementação de sistemas agroflorestais.

Foto: Modelo de agrossilvicultura multiestratificada na Fazenda da Toca, em Itirapina (SP), Brasil. Divulgação Fazenda da Toca.

Outro caso emblemático vem da Costa Rica, que encontrou nas práticas regenerativas uma forma de diversificar sua economia, combinando crescimento econômico e ecológico. O país é modelo no mundo por ter revertido o processo de perda de cobertura florestal com a implantação de um programa nacional de pagamentos por serviços ambientais. Com isso, ampliou sua área de cobertura florestal original de 26% em 1990 para 52% em 2013. Essa bem sucedida recuperação florestal resulta da aposta no turismo de natureza e na implementação de práticas agroecológicas e sistemas agroflorestais de produção, com destaque para o café, considerado um dos melhores do mundo. Assim, a economia a Costa Rica registrou um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 69,5% entre 2013 e 2017, a maior expansão de toda a América Latina, de acordo com a Comissão Econômica Para América Latina (Cepal). A Costa Rica também detém o primeiro lugar no Happy Planet Index, que mede o bem-estar sustentável e “o quão bem as nações estão indo para alcançar vidas longas, felizes e sustentáveis”, nas palavras do New Economics Foundation responsável pelo índice.

Estamos em meio a uma enorme mudança cultural em resposta a desafios complexos como a crise climática. Além de oferecer uma das soluções mais custo-efetivas para reverter a mudança climática, as práticas de agricultura e pecuária regenerativas ajudam a restaurar solos; gerar renda no campo, diminuindo assim a pressão sobre as cidades e contribuindo para a segurança alimentar, hídrica e energética, resultando em maior resiliência tanto do ponto de vista ambiental, quanto social e econômico.

Juliana Lopes, Fundadora da PulsarCom e Roberto Strumpf, sócio diretor da Pangea e consultor associado da PulsarCom.

Quer saber mais sobre práticas de agricultura e pecuária regenerativas? Escute o podcast da Pulsar sobre o tema com Roberto Strumpf, diretor executivo da Pangea Capital.

[1] FAO, 2019. Disponível em: http://www.fao.org/fileadmin/templates/solaw/files/thematic_reports/TR_04b_web.pdf

[2] https://www.thedailybeast.com/can-carbon-farming-reverse-climate-change

[3] https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2019/08/4.-SPM_Approved_Microsite_FINAL.pdf

[4] https://www.drawdown.org/solutions/food

[5] A agricultura de conservação foi desenvolvida no Brasil e na Argentina na década de 1970 e segue três princípios fundamentais: a) minimizar a perturbação do solo: ausência de arado, os agricultores semeiam diretamente no solo; b) manter a cobertura do solo: os agricultores deixam resíduos da colheita após a colheita ou cultivam plantas de cobertura; c) gerenciar a rotação de culturas: os agricultores mudam o que é cultivado e onde. Disponível em: https://www.drawdown.org/solutions/food/conservation-agriculture

Meta para que te quero?

Metas com base na ciência servem como bússola para guiar os negócios rumo a uma nova economia, em que o carbono se torna uma métrica cada vez mais relevante para a competitividade.

Por Juliana Lopes e Roberto Strumpf*
Publicado originalmente em Pangea Capital

Estamos dirigindo em uma estrada tortuosa e com chuva quando, de repente, recebemos pelo rádio a informação de que logo adiante uma ponte se rompeu, formando um verdadeiro precipício. Se ainda nos resta algum instinto de autopreservação, a opção mais razoável seria buscar uma rota alternativa. Certo? Porém, em se tratando de mudanças climáticas, decidimos desligar o rádio ou, no máximo, reduzir um pouco a velocidade.

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), as emissões de gases de efeito estufa tiveram um aumento de 41% desde 1990. Seguindo essa trajetória, projeções apontam que as temperaturas globais podem aumentar entre 3,7°C e 4,8°C até o final deste século (2100) levando-nos a uma mudança climática perigosa e irreversível.

Para frear o aumento da temperatura entre 1,5°C e 2ºC, limite considerado seguro, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC adverte que, até 2030, as emissões devem cair 45% em relação aos níveis pré-industriais. Além disso, o mundo deverá alcançar em 2050 uma neutralidade de carbono, ou seja, terá que deixar de emitir mais CO2 do que se retira da atmosfera.

Esse cenário exige transformações “rápidas” e “sem precedentes”, nas palavras dos cientistas do IPCC em seu último relatório, em setores-chave da economia como energia, transporte, indústria e uso da terra. Diante desse alerta da comunidade científica, cabe aos negócios adequarem suas estratégias para uma lógica regenerativa.

Uma nova economia pode – e deve – surgir a partir de soluções que removam e sequestrem mais carbono da atmosfera do que emitem. Não seria apenas uma economia de baixo carbono, pois desacelerar emissões não é mais uma opção razoável, o que se propõe é uma economia regenerativa, que gera valor ao mesmo tempo em que remove carbono da atmosfera.

No relatório Our Carbon Future, os especialistas da Volans argumentam que tais soluções ajudariam a pavimentar o caminho para reverter o aquecimento global e, simultaneamente, gerar prosperidade econômica para as pessoas. Segundo eles, enfrentar este duplo desafio requer uma mudança radical na forma como usamos o carbono para criar valor econômico.

Nessa nova economia, o carbono se torna uma métrica positiva de produtividade, abrindo espaço para uma série de inovações e oportunidades de negócios.

Esse relatório destaca uma série de exemplos concretos de negócios que representam essa nova economia. Cita o Projeto Drawdown que mapeou 80 soluções que juntas elas reduziriam o CO2 atmosférico em mais de 1.000 gigatoneladas. Estima-se que as economias dessas soluções (distribuídas ao longo de 30 anos) superariam os custos em quase US$ 45 trilhões – equivalente a uma taxa de retorno de aproximadamente 150%.

Alguns exemplos exitosos incluem um protótipo de carpete desenvolvido pela Interface chamado Proof Positive, que incorpora carbono derivado de plantas, removendo assim 1,85 quilos  de CO2 da atmosfera por metro quadrado instalado. Outro caso é o da Covestro, que desenvolveu um polímero à base de CO2 chamado Cardyon, esse produto químico é utilizado em móveis e colchões estofados e tem até 20% da sua constituição vem do CO2.

Diante desse cenário, a adoção de metas baseadas na ciência é uma forma de comunicar que os esforços de mitigação de uma empresa estão alinhados à ambição do Acordo de Paris e também demonstrar que os negócios estão preparados para essa nova economia.

Pensando nisso, a iniciativa global Science Based Targets (SBT), se propõem a discutir metodologias e abordagens para uma meta baseada em ciência e reconhece às empresas que já se comprometeram publicamente com esse nível de ambição.

As metas funcionam como uma bússola para que as empresas entendam onde estão, para guiá-las ao seu destino e para verificarem se estão no curso correto durante sua jornada rumo a uma nova economia.

Juliana Lopes, Fundadora da PulsarCom e Roberto Strumpf, Diretor da Pangea Capital e consultor associado da PulsarCom.

Uma nova mineração é possível?

O setor de mineração precisará articular-se para manter a sua licença social para operar, assim como fez o setor químico após grandes tragédias nas décadas de 80 e 90

Por Jacques Demajorovic* e Juliana Lopes**

Publicado originalmente em Página 22

As estruturas fragmentadas e altamente hierarquizadas das organizações acabam por intimidar e até desresponsabilizar os indivíduos de tomar decisões difíceis, mas necessárias para a resiliência dos negócios, da economia e da sociedade. Essa característica leva, em casos mais extremos, a grandes tragédias resultantes de omissões em série.

Isso explica em parte porque em um intervalo de menos de quatro anos, o Brasil testemunhou as duas maiores tragédias ambientais, sociais e econômicas na atividade de mineração. Primeiro com o rompimento da barragem de Fundão da mineradora Samarco, que tinha como acionistas a Vale e a BHP Billiton, em 5 de novembro de 2015. Em janeiro de 2019, testemunhamos o rompimento de outra barragem da Vale em Brumadinho, também em Minas Gerais, evidenciando que pouco se absorveu em termos de aprendizados desde a primeira tragédia.

Diante da repetição de episódios assim, o setor de mineração precisará articular-se para manter a sua licença social para operar, ou seja, a legitimidade junto às diferentes partes interessadas para realizar suas atividades. Sem essa licença social, a atividade de mineração fica sujeita a interrupções frequentes e a custos cada vez maiores que podem simplesmente fazer com que o negócio se inviabilize.

Dois importantes desdobramentos recentes dos casos de Mariana e Brumadinho corroboram com essa avaliação. No caso de Mariana, o processo de reparações por danos materiais e morais, movido pelo escritório anglo-americano SPG Law em favor dos atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão, ingressou na corte da Inglaterra e do País de Gales. Conforme noticiado na imprensa, o montante de reparações pode ultrapassar os 5 bilhões de libras (mais de R$ 24 bilhões, na cotação atual) a serem pagos pela BHP Billiton SPL – braço inglês da BHP Billiton, a controladora da mineradora Samarco ao lado da Vale. Aderiram à ação 240 mil pessoas, mil empresas, 24 municípios, representantes de igrejas católicas e evangélicas e a comunidade indígena Krenak. Se não houver acordo, a expectativa é de que o processo seja julgado até 2020 na corte de Liverpool.

Já em Brumadinho, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para investigar as causas da tragédia apresentou no dia 12 de setembro de 2019 seu relatório final e pediu o indiciamento de 13 pessoas por homicídio e lesão corporal com dolo eventual, entre outros crimes. O documento, aprovado por unanimidade pelos sete integrantes da CPI, será entregue à Polícia Civil e ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), autoridades encarregadas das investigações criminais. Entre os 13 apontados pela CPI como responsáveis pela tragédia, 11 são dirigentes ou funcionários da Vale. Também foi pedido indiciamento de dois engenheiros da Tüv Süd, empresa que assinou o laudo de estabilidade de barragem.

O mundo segue sedento por minérios, tendência puxada, sobretudo, pelo aumento do consumo de eletroeletrônicos, especialmente na Ásia. Mas o simples argumento de crescimento econômico e geração de empregos já não se apresenta como contrapartida razoável frente aos altos riscos a que diferentes partes interessadas são submetidas pela atividade de mineração.

O setor precisará repactuar o seu contrato social para assegurar a perenidade dos seus negócios. Portanto, o momento é oportuno para a atividade de mineração se organizar com o intuito de construir protocolos para gestão de riscos, a exemplo do que aconteceu no setor químico na década de 90 após grandes tragédias como Bhopal, na Índia, em 1984. Esse episódio foi marcado pelo vazamento em uma indústria de pesticidas da Union Carbide, matando, oficialmente, mais de 3 mil pessoas e contaminando por décadas o entorno da fábrica.

Os impactos desta tragédia resultaram em maior controle e regulação do setor químico. Bhopal marcou também o nascimento de um movimento mundial da indústria química chamado Responsible Care ou Atuação Responsável no Brasil. Criado em 1984, pela Associação Canadense de Empresas Químicas, hoje se espalha por 53 países, com o objetivo de melhorar voluntariamente o desempenho ambiental, de saúde e segurança, além do diálogo com a comunidade.

Longe de resolver todos os problemas socioambientais da atuação do setor químico, o programa promoveu um grande avanço na gestão de indústrias químicas signatárias desta iniciativa no que se refere à melhoria de segurança e desempenho ambiental nos processos produtivos. Assim, um cenário parecido poderia ser seguido no setor de mineração. Não por coincidência, 20 anos depois do lançamento do Responsible Care no Canadá, a Associação de Mineradoras Canadenses lançou em 2004, o Towards Sustainable Mining, um conjunto de ferramentas e indicadores, auditados por terceira parte, visando assegurar a gestão efetiva de riscos em atividades minerais.

Uma articulação setorial desse tipo, mas em âmbito mundial, ajudaria empresas de mineração a superar as armadilhas do pensamento de curto-prazo, tendo em vista que os principais players do setor são empresas de capital aberto e que, portanto, prestam contas de seu desempenho financeiro trimestralmente. Com a cabeça imersa em planilhas e telas de computador por onde passam transações bilionárias, executivos, conselheiros e investidores se desconectam da realidade sem se dar conta muitas vezes em como elas afetam a vida de milhares de pessoas e podem comprometer a perenidade do próprio negócio.

Naturalmente, não se pode apostar todas as fichas nas iniciativas voluntárias das empresas. A experiência internacional mostra, como no caso do Responsible Care, que quanto mais avançada e rígida a legislação ambiental e a capacidade de punição por parte do Estado de empresas e seus gestores, maior será o aprendizado e alcance das incitavas voluntárias de empresas nas áreas de segurança e meio ambiente.

Hoje, quem ousa subverter a lógica do curto-prazo acaba penalizado. Mas por pior que seja a mensagem, matar o mensageiro nunca é a solução. Os questionamentos dos conselheiros, colaboradores, comunidades, investidores e demais stakeholders precisam ser acolhidos, pois esse rol ampliado de visões contribui com a gestão de riscos e oportunidades, proporcionando maior resiliência ao negócio. Isso nada mais é do que boa gestão e deveria ser o foco do setor de mineração a partir de um amplo debate com a sociedade sobre as tragédias que protagonizou e assim tirar aprendizados para evitar que se repitam, bem como construir uma visão sobre a mineração que se quer para o futuro e como chegar lá.

*Jacques Demajorovic, professor-doutor do programa de pós-graduação em administração do Centro Universitário FEI e Coordenador do Grupo de Pesquisa em Licença Social para Operar.

**Juliana Lopes, fundadora da PulsarCom, mestre em administração de empresas pelo Centro Universitário FEI e membro do Grupo de Pesquisa em Licença Social para Operar.

Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?

Uma visão crítica sobre mais de uma década de discussão relacionada a indicadores Ambientais, Sociais e de Governança

Por Juliana Lopes

Quem tem mais de 30 anos deve lembrar-se da pergunta que dá título a este artigo e se consagrou na propaganda de uma marca de bolachas brasileira nos anos 90. Nas discussões sobre integração de questões ASG — Ambientais, Sociais e de Governança o chamado dilema Tostines em alusão à frase com que abrimos este texto por muito tempo intrigou analistas. Há os que defendem que as companhias melhor posicionadas no mercado acabam sendo por consequência as que mais investem em questões relacionadas à sustentabilidade. Mas há quem defenda que na verdade são as empresas mais sustentáveis as que oferecem a melhor relação de risco x retorno para investidores justamente por integrarem questões ambientais, sociais e de governança a sua estratégia.

A primeira vez que me deparei com essa discussão foi em 2008 em uma das minhas primeiras incursões jornalísticas no campo da sustentabilidade. Ricardo Voltolini da Ideia Sustentável me confiou a tarefa de escrever uma matéria especial para a Revista de mesmo nome com o intrigante tema: quanto vale ser sustentável?

Fiz um mergulho nos principais indicadores de sustentabilidade, Dow Jones Sustainability Index (DJSI), Índice de Sustentabilidade Empresarial, GRI, CDP e entrevistei pelo menos 20 especialistas, entre os quais Bob Willard, autor do livro The Sustainablity Advantage, e fundador do Future-Fit Business, que propõe indicadores orientados ao futuro.

Willard fez o que parecia óbvio, mas ninguém até então tinha ousado tentar. Não precisou criar uma nova teoria econômica nem mesmo desenvolver um sistema específico para mensurar o valor da sustentabilidade. Avaliou o impacto financeiro do investimento em sustentabilidade em questões-chave para o negócio e conseguiu demonstrar a correlação financeira da sustentabilidade a partir do aumento da reputação e da produtividade, valorização da marca e das ações, diminuição dos riscos do negócio, maior facilidade de financiamentos e atração/retenção de talentos entre outros benefícios associados a um comportamento responsável. Assim concluiu que, ao incorporar a sustentabilidade na estratégia do negócio, uma grande empresa pode alcançar até 38% a mais de lucro e uma pequena empresa, até 66%, no curto e médio prazos.

Passados mais de 10 anos, me vejo ao lado dos amigos veteranos no campo da sustentabilidade, avaliando essa última década. Apesar de todos os nossos esforços, ainda impera o modo tradicional de se fazer negócios (business as usual) e têm se multiplicado casos que demonstram o alto custo de não integrar questões ambientais, sociais e de governança à gestão.

Tendo a achar que ficamos presos ao dilema Tostines e nos distanciamos do que é realmente substancial, ou seja, transformar os negócios e a economia para livrar-nos de uma extinção programada da nossa espécie e de muitas outras mais.

Importantes pensadores da sustentabilidade também têm nos convidado a fazer uma avaliação dos indicadores de sustentabilidade construídos na última década. Estariam eles contribuindo para transformação dos modelos de negócios no sentido de uma economia regenerativa, mais próspera e justa?

Recomendo a leitura do artigo de John Elkington, criador do tripé da sustentabilidade, em que ele pede o recall do conceito. Também os convido a ler a análise da escritora Lorraine Smith em artigo intitulado ESG Data is Like Less Wife Beating.

Tragédias recentes como a de Mariana e Brumadinho me fazem crer que o problema não está na falta de métricas. Afinal, como Willard demonstrou é possível traçar a correlação financeira com questões de sustentabilidade, desde que isso seja prioritário para as empresas e seus stakeholders.

Em uma análise das atas do Conselho de Administração da Vale, Eduardo Carone revelou que existiam 18 menções a riscos cambiais e zero menções a riscos ambientais. Esses riscos existiam, mas foram ignorados, não por falta de métricas para mensurá-los. A meu ver as estruturas fragmentadas e altamente hierarquizadas das companhias acabam por intimidar e até desresponsabilizar os indivíduos de tomar decisões difíceis, mas necessárias para a resiliência dos negócios, da economia e da sociedade.

Com a cabeça imersa em planilhas e telas de computador por onde passam transações bilionárias, executivos, conselheiros e investidores se desconectam da realidade sem se dar conta muitas vezes em como elas afetam a vida de milhares de pessoas e podem comprometer a perenidade do próprio negócio.

Hoje, quem ousa subverter a lógica do curto-prazismo acaba penalizado. Mas por pior que seja a mensagem, matar o mensageiro nunca é a solução. Os questionamentos dos conselheiros, colaboradores, comunidades, investidores e demais stakeholders precisam ser acolhidos, pois esse rol ampliado de visões contribui com a gestão de riscos e oportunidades, proporcionando maior resiliência ao negócio, à economia e à sociedade como um todo. Isso nada mais é do que boa gestão.

Juliana Lopes é jornalista e gestora ambiental, fundadora da PulsarCom.

Bioinovação: uma história de 3.8 bilhões de anos

O que Leonardo da Vinci, Nike, Natura, Patagonia, General Eletric e NASA têm em comum?

*Por Juliana Lopes e Roberto Strumpf

O que alguns ícones da inovação perceberam – de Da Vinci à GE – é que na natureza encontramos um acervo de soluções aprimoradas ao longo de 3,8 bilhões de anos de evolução.

São inúmeros exemplos de inovação bioinspirada: da descoberta de novos materiais à aerodinâmica de meios de transporte, como o trem-bala Shinkansen 500, que usando princípios de design copiados do bico do martim-pescador é mais rápido e silencioso além de consumir menos energia.

Leonardo da Vinci, por sua vez, desde criança sonhava em voar e para isso criou uma série de protótipos inspirados na estrutura dos pássaros, modelos que centenas de anos depois serviram de referência para invenções que mudaram a história da humanidade, como paraquedas, avião, helicóptero, entre outros.

Outro exemplo disruptivo vem das borboletas do gênero Morpho que podem ser reconhecidas pela sua cor azul única. Essa estratégia intrigou pesquisadores, pois não é baseada em pigmentos, mas em como a estrutura da superfície de suas asas difrata e espalha a luz.Esse princípio foi aplicado pela empresa de tintas automotivas ChromaFlair Colors.

Também existem pesquisas promissoras tentando criar uma versão sintética da seda de aranha, que tem resistência e tração semelhante ao aço, mas é tão flexível quanto a borracha e é produzida sem a necessidade de altas temperaturas . Em 2013, a empresa alemã AMSilk começou a produção da primeira fibra escalável com propriedades mecânicas semelhantes à seda de aranha natural, um biopolímero que pode ser utilizado em vários produtos de cosméticos a roupas. Neste ano, a Natura também lançou uma linha de produtos para cabelo inspirada na tecnologia da teia de aranha.


Os casos citados demonstram como a natureza é abundante em recursos e estratégias. Há 20 anos, Janine Benyus deu nome à inovação inspirada na natureza iniciando uma área do conhecimento chamada biomimética. O Biomimicry 3.8, organização fundada por ela, descreve três níveis de biomimética:

1. Aprendendo com os padrões da natureza;
2. Aprendendo com os processos da natureza; e
3. Aprendendo com a natureza no nível dos ecossistemas.

Assim, a biomimética dialoga com a visão de uma economia circular, baseada na imitação do padrão cíclico da natureza de fluxos de materiais com base em recursos de energia renovável, em ciclo fechado, sem desperdício.

Benyus e sua equipe levaram essa proposta para todo o mundo, inspirando estratégias de inovação nacionais e atuando com muitas organizações, entre as quais HOK, Nike, Natura, Patagonia, Seventh Generation, General Eletric e NASA.

Para além de uma lógica de produto

A mesa do escritório talvez seja o pior lugar para olhar o mundo. Ainda assim, é nesse ambiente que a maior parte das decisões é tomada e isso explica, em parte, as múltiplas crises que enfrentamos, seja de caráter econômico, ambiental, social, político e, sobretudo, ético.

Em um estudo realizado por pesquisadores do MIT, após uma bateria de 150 entrevistas com executivos, pesquisadores e cientistas, eles perceberam que as grandes descobertas eram quase sempre consequência de um momento de introspecção e ruptura com padrões e pensamentos pré-concebidos

Atividades na natureza nos permitem reconectar como o nosso lado mais criativo, essência da inovação. Além de proporcionar insights para projetos pessoais e profissionais, temos pistas para uma participação mais adequada nos sistemas que sustentam a vida. Para isso, é preciso uma visão holística das cadeias de valor, de modo que processos produtivos operem em alinhamento com leis naturais, que são cíclicas e regenerativas.

Há cada vez mais evidências de que essa é também a escolha mais inteligente a se fazer. Patentes, artigos acadêmicos e bolsas de pesquisa relacionados a tecnologias e negócios baseados na natureza aumentaram mais de cinco vezes desde 2000, segundo o Fermanian Business & Economic Institute. O Instituto estima que este campo poderá representar US$ 1,6 trilhão do PIB global até 2030. Investidores também começam a buscar opções de investimento com essa caraterística, sendo o Ethical Biomimicry Finance um dos exemplos mais notórios dessa tendência.

Uma visão norteadora para dar escala a tecnologias e negócios desse tipo consiste em uma economia circular baseada na imitação do padrão cíclico da natureza de fluxos de materiais com base em recursos de energia renovável, em ciclo fechado, sem desperdício. Isso passa por uma nova lógica de geração de valor econômico a partir dos fluxos da natureza, enquanto conservamos os estoques. No Brasil, a bioeconomia tem potencial de atrair US$ 400 milhões em investimentos para os próximos 20 anos e gerar mais de 200 mil empregos, segundo estudo da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI).
Assim, bioeconomias circulares podem consistir em um motor de inovação, geração de empregos e prosperidade para o século XXI.

*Entre os dias 27 e 29 de setembro, reunimos influenciadores e lideranças para aprender a partir da observação das estratégias da natureza no PlugIn PlugOut: workshop Sobre Inovação inspirada na Natureza, uma realização da Pangea Capital e da PulsarCom. Saiba mais.

Juliana Lopes, consultora associada da Pangea Capital e fundadora da PulsarCom;
Roberto Strumpf, sócio diretor da Pangea Capital.