Perenidade dos negócios no século XXI

Por Gláucia Térreo, Maria Veloso e Juliana Lopes*

Conselho de Administração tem o dever fiduciário de zelar pela perenidade do negócio e essa tarefa inclui debruçar-se sobre aspectos ambientais, sociais e de governança, bem como os riscos e oportunidades relacionados

Vivemos tempos de rápidas mudanças em um mundo globalizado e interconectado, de modo que as organizações precisam considerar uma gama cada vez mais ampliada de fatores no seu planejamento e tomada de decisão. Esses fatores incluem macrotendências socioeconômicas ambientais diversas que vão desde mudança climática, instabilidade social, desemprego, terrorismo até consequências adversas do avanço da tecnologia digital, riscos globais apontados pelo Fórum Econômico Mundial em seu relatório anual de 2020. Diante disso, considerar aspectos ambientais, sociais e de governança (ASG) no planejamento e tomada de decisão se torna fundamental para assegurar a solidez e perenidade dos negócios no curto, médio e longo prazo.

Como guardião da boa gestão e da perenidade do negócio, o Conselho de Administração precisa tomar conhecimento e se apropriar de informações relacionadas a aspectos ASG. Esse foi um dos apontamentos de uma pesquisa encomendada pela Global Reporting Initiative – GRI que ouviu 18 profissionais de sustentabilidade e conselheiros de administração de empresas brasileiras de diversos setores.

As conclusões dessa pesquisa estão disponíveis no estudo “ASG como estratégia para perenidade dos negócios no século XXI: perspectivas de profissionais de sustentabilidade e conselheiros de administração”, lançado em outubro de 2019 no GRI Summit: a visão dos stakeholders.

Um dos apontamentos da pesquisa é que não basta ter acesso a informações e relatórios sobre sustentabilidade. Os conselheiros de administração precisam ter conhecimento próprio sobre aspectos ASG para serem proativos e capazes de confrontar dados e analisar como esses aspectos podem se materializar em riscos e oportunidades para o negócio.

A pesquisa mostrou também que para o entendimento de aspectos ASG como estratégicos por parte dos conselheiros de administração é necessário uma mudança de paradigma e normalmente resulta da pressão de stakeholders externos, sendo investidores o grupo com maior poder de influência. Cada vez mais investidores desempenham papel central nas questões climática, por interesse em “de-risk”, pressionando por transparência, divulgação e apoiando os planos de descarbonização corporativa de longo prazo.

Essa pressão tem ocorrido, sobretudo, depois de eventos catastróficos como as de Mariana e Brumadinho, que resultaram justamente por deficiência no processo de gestão de riscos e pouca apropriação dos tomadores de decisão em diferentes níveis das companhias principalmente em relação a riscos territoriais e relacionados aos aspectos, ambientais, sociais e de governança.
As experiências compartilhadas pelos participantes da pesquisa mostram que quando o risco se materializa em impacto negativo, como no caso desses eventos catastroficos, há importante lições aprendidas, que direcionam para uma maior integração dos aspectos ASG nas decisões e estratégia. Um olhar holístico sobre os riscos do negócio mostra cenários que prepara para as crises “remotas” ou de baixa probabilidade mas com alto impacto.

Não há dúvida que uma gestão de riscos holística e estratégica nas empresas tem o potencial de antecipar esses riscos e preparar a organização a partir de ações mitigadoras, adaptativas e emergenciais aos riscos e, ao mesmo tempo buscar oportunidades. Para isso, é crucial que a primeira linha de defesa, formada pela diretoria executiva e operacional, tenha essas questões como prioridade, bem como estejam mais atentas ao que acontece em campo (chão de fábrica). Ao mesmo tempo, se o Conselho de Administração tiver uma visão estratégica sobre esses temas ASG pode demandar e confrontar informações, uma vez que seu papel é zelar pela perenidade do negócio, enquanto executivos muitas vezes têm foco maior nos resultados de curto prazo.

Em resumo, os resultados dessa pesquisa apontam que a conexão de aspectos ASG com o negócio ainda depende de processo de aprendizado por parte dos Conselhos e da própria organização como evolução da sua curva de maturidade.

Os conselheiros têm um importante papel de entender as transformações globais, os riscos e oportunidades para os negócios, bem como conduzir estratégias e compromissos que combinem os interesses e as necessidades de um universo mais amplo de partes interessadas e críticas para organização (incluindo shareholders e o ambiente) e em garantir um gerenciamento de riscos que considere aspectos ASG, além de reduzir usos e impactos a fim de proteger e integrar valor e assim assegurar a perenidade e sustentabilidade do negócio.

Para isso, os questionamentos dos conselheiros e das partes interessadas precisam ser acolhidos, pois esse rol ampliado de visões contribui com a gestão de riscos e oportunidades, proporcionando maior resiliência ao negócio, à economia e à sociedade como um todo. Isso nada mais é do que a velha e boa gestão: ética, transparente e comprometida com o negócio e a sociedade

Gláucia Térreo, diretora da GRI no Brasil
Maria Veloso, diretora da JVE Consultoria
Juliana Lopes, fundadora da PulsarCom