Navegando em mares revoltos

O que podemos observar em termos de tendências e sinais de mudança nesta década que se inicia

Juliana Lopes e Roberto Strumpf*

Publicado originalmente em Pangea Capital

Em tempos de transição como o que vivemos, caracterizado ainda por muita confusão e instabilidade, a capacidade de observar tendências e sinais de mudanças torna-se crucial para traçar estratégias tanto no âmbito pessoal quanto profissional. Por isso, convidamos você a fazer esse exercício de reflexão conosco a partir de alguns acontecimentos dessas primeiras semanas de 2020 que relacionamos a seguir.

1. A nova ordem é regenerar

Em janeiro de 2020, a Volans e a EcoVadis, lançaram o estudo “Procuring a regenerative economy”[1], como resultado do trabalho da iniciativa Tomorrow’s Capitalism, focada no papel da liderança corporativa e como as empresas podem promover ativamente a mudança sistêmica. As conclusões desse trabalho apontam para uma evolução progressiva da agenda de negócios: de compliance para resiliência e regeneração. A economia regenerativa é caracterizada como aquela que serve as pessoas[2] e contribui para a regeneração dos sistemas que mantêm a vida. Eles incluem processos naturais que geram alimentos e insumos; regulam as condições ambientais como a absorção de CO2 pela fotossíntese das florestas; regulação do clima; polinização de plantas; controle de doenças e pragas etc.

Entre os destaques deste estudo, está um caso brasileiro com o selo Origens Brasil e a experiência de venda de orgânicos à preço justo do Instituto Feira Livre. Entre as recomendações do estudo, destaca-se a necessidade de redefinir a lógica da prática de compras de uma abordagem linear da cadeia de valor, em que os fornecedores são tratados como um custo externo a ser minimizado, para a criação de valor nos sistemas biológicos, sociais e industriais. Para que isso seja possível, profissionais de compras precisam ser incentivados a priorizar os resultados sociais e ambientais – juntamente com as metas financeiras – e serem recompensados por isso para superar a atual mentalidade centrada apenas no preço.

2. Integração de questões Ambientais, Sociais e de Governança (ASG), o novo normal

As questões ASG no centro das discussões do Fórum Econômico de Davos, que, em sua edição em 2020, resgatou a ideia de capitalismo de stakeholders, uma evolução do “capitalismo shareholder”, voltado apenas para o interesse dos acionistas. Trata-se de voltar os interesses das empresas ao “stakeholder”, ou seja, a qualquer um que dependa — diretamente ou não — do sucesso da companhia. Isso inclui acionistas, funcionários, a comunidade local e outras empresas na cadeia produtiva. Essa não é uma ideia nova. Ela foi descrita por Klaus Schwab pela primeira vez em 1971, culminando com a criação do Fórum Econômico Mundial com o objetivo de ajudar lideranças empresariais e políticas a aplicá-lo. Mas precisou que jovens em manifestações por todo o mundo lembrassem esses representantes do senso de urgência de agir diante de desafios globais como a mudança do clima. Por isso, o capitalismo de stakeholder foi destaque no Manifesto de Davos por uma melhor forma de capitalismo novamente na edição de 2020, o que pode ser observado no Manifesto de Davos[3].

Em resposta a pressão da sociedade, entre a comunidade financeira, ganha corpo um movimento por uma nova economia. Os investidores começam a se dar conta de que ações prejudiciais à sociedade também prejudicam os negócios e destroem valor para os acionistas. Essas foram palavras de Larry Fink, CEO da BlackRock, maior investidor institucional do mundo, que em sua carta anual às empresas investidas destacou a sustentabilidade como novo padrão de investimento. Também anunciou o compromisso da firma de integrar aspectos ambientais, sociais e de governança integralmente à gestão dos portfólios e ativos até o final de 2020.

Fink, também destacou que “os investidores estão procurando entender tanto os riscos físicos associados às mudanças climáticas, quanto as formas pelas quais as regulamentações terão impacto nos preços, custos e demanda em toda a economia.”[4]

Essa tendência também foi apontada no State of Green Businness 2020[5], relatório anual de tendências da GreenBiz, que destacou a mensuração de riscos físicos e de transição associados às mudanças climáticas.

3. Remoções de carbono, uma nova moeda

Relatórios recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas deixaram claro que a redução de emissões por si só não é suficiente – também precisaremos remover bilhões de toneladas de gases de efeito estufa da atmosfera para evitar uma mudança climática irreversível. Essa é uma das tendências destacadas no State of Green Business 2020. “A ideia de que as empresas podem reduzir suas pegadas de carbono pagando outras organizações para reduzir as emissões de gases do efeito estufa tem cerca de duas décadas. Mas o uso de novas tecnologias e a ênfase na remoção de CO2 da atmosfera ao invés de apenas reduzir as emissões, juntamente com a chegada de novos compradores, a maioria notadamente da indústria da aviação, trarão grandes mudanças para o mercado de compensações de carbono em 2020 e adiante”, aposta o estudo.

Ainda nesta década, a discussão sobre sustentabilidade precisará avançar no sentido da transformação efetiva dos sistemas econômico, social e político, de modo que os negócios prosperem por causa – e não apesar de – seu compromisso com a criação de valor: econômico, social e ambiental. Assim, cada vez mais as empresas serão avaliadas pela sua capacidade de gerar benefícios para a sociedade e o ambiente, em processos que levem em consideração as demandas das múltiplas partes interessadas, o que inclui as pessoas e os ecossistemas, responsáveis pelos processos naturais que sustentam a vida.

Juliana Lopes, fundadora da PulsarCom e Roberto Strumpf, sócio diretor da Pangea e consultor associado da PulsarCom.

[1] https://volans.com/wp-content/uploads/2020/01/Procuring-a-Regenerative-Economy-FINAL.pdf [2] https://medium.com/age-of-awareness/towards-a-regenerative-economy-bf1c2ed6f792 [3] https://medium.com/age-of-awareness/towards-a-regenerative-economy-bf1c2ed6f792 [4] https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/01/14/ceo-da-blackrock-divulga-carta-e-anuncia-mudanca-no-padrao-de-investimento.ghtml [5] https://www.greenbiz.com/webcast/state-green-business-2020

Carbon farming

Que tecnologia seria capaz de capturar carbono da atmosfera, fixá-lo em produtos de interesse econômico, gerando como subproduto água e oxigênio?

Por Juliana Lopes e Roberto Strumpf*

Publicado originalmente em Pangea Capital

Se tem um tema que conecta a todos nós é a comida ou a falta dela. A segurança alimentar, ou seja a capacidade de produzir ou ter acesso a alimentos em quantidade e qualidade suficientes, tem ditado o rumo da humanidade desde os seus primórdios e continua até hoje no centro de grandes disputas comerciais e políticas. Em tempos de crise climática nos vemos diante daquele que consiste no maior desafio e também na maior oportunidade do século XXI: alimentar uma população que, em 2050, vai chegar a 9.2 bilhões de pessoas e ao mesmo tempo estabilizar o clima do Planeta[1].

Desde a Revolução Industrial, temos tirado carbono das profundezas da terra para lançá-lo na atmosfera em quantidade sem precedentes devido ao aumento vertiginoso do consumo de combustíveis fósseis, cuja queima tem como resultado os gases de efeito estufa (GEE). Assim, devido à ação humana, registramos aumentos recordes na temperatura média global, desestabilizando sistemas que sustentam a vida no Planeta há bilhões de anos, entre os quais a regulação climática. Se as emissões continuarem subindo, vamos chegar a um patamar de 2ºC a 4ºC adicionais na temperatura média global até 2050. Para entender melhor o impacto disso, basta lembrar como nosso corpo reage a um estado febril. Com o aumento de um grau, muitas funções do nosso organismo já ficam comprometidas e uma febre de dois graus pode levar-nos à morte. Com o Planeta não é diferente.

Para evitar essa mudança climática perigosa e irreversível, os cientistas recomendam esforços para reduzir as emissões de carbono em 50% até 2030, alcançando emissões neutras ainda neste século. Em outras palavras, além de reduzir emissões de carbono precisaremos desenvolver formas de removê-lo da atmosfera.

Agora, imagine se existisse uma tecnologia capaz de capturar carbono da atmosfera, fixá-lo em produtos de interesse econômico, gerando como subproduto água e oxigênio. Pois essa tecnologia existe e está bem debaixo do nosso nariz… literalmente. De tão óbvia, ela vem sendo ignorada. Se estamos respirando agora e nos alimentando é porque existe uma sofisticada tecnologia de ciclagem de carbono na natureza, que por meio da ação de microorganismos e da fotossíntese das plantas, devolve nutrientes para o solo, fixa carbono e ainda produz oxigênio e água.

Tudo o que precisamos fazer para dar escala a essa tecnologia é trabalhar a favor dos sistemas que sustentam a vida no Planeta há bilhões de anos. Esse é o princípio norteador da agricultura regenerativa caracterizada por práticas que contribuem para:

1. Reconstrução, fertilidade e saúde dos solos

2. Infiltração e retenção de água.

3. Melhorar e conservar a biodiversidade.

4. Saúde dos ecossistemas, sua capacidade de auto-renovação e resiliência

5. Sequestro ou captura de carbono da atmosfera

E que práticas são essas que caracterizam a agricultura regenerativa? Segundo Torri Estrada, diretor executivo Carbon Cycle Institute (CCI), existem em torno de 36 práticas[2] que contribuem para o chamado cultivo de carbono, orginalmente conhecido como carbon farming, que consiste justamente no sequestro de carbono, item 5 da lista acima, mas que contribui também para os outros aspectos citados. Entre elas estão técnicas como o plantio direto e sistemas de produção agroflorestais, que seguem a lógica da floresta combinando espécies de variados extratos vegetais que se beneficiam mutuamente a fim de aumentar a fertilidade e saúde dos solos. Isso é possível graças à produção de matéria orgânica em grandes quantidades para manter o solo protegido, reduzindo a necessidade de fertilizantes e defensivos químicos a base de petróleo.

O recente Relatório Especial do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sobre uso do solo, lançando em agosto de 2019, conclui que atividades agroflorestais, práticas agropecuárias de baixo-carbono ou regenerativas podem contribuir com a redução de até 10 GtCO2e por ano até 2050, o que equivale a 20% das emissões antropogênicas[3].

Segundo o Projeto Drawdown, que se apresenta como “o plano mais abrangente já proposto para reverter o aquecimento global”, o setor de alimentos pode contribuir com 30.6% das reduções de emissões de carbono necessárias para limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC. A Tabela 1 mostra as faixas de remoção de carbono por hectare ao ano para diferentes práticas regenerativas. Os tipos de seqüestro incluem carbono orgânico do solo (SOC), biomassa acima do solo (AGB) ou ambos. Essas estimativas são apresentadas em emissões de carbono equivalentes, considerando dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O)[4].

TABELA 1: TAXAS DE REMOÇÃO (Em toneladas métricas de carbono equivalente por hectare por ano)

© 2017 Project Drawdown

No livro Drawdown, de autoria de Paul Hawken, são apresentadas 100 Iniciativas para Resolver a Crise Climática, entre elas está a experiência brasileira da Fazenda da Toca de agrossilvicultura multiestratficada. Com suas muitas camadas de vegetação, um hectare de agrossilvicultura multiestratificada pode alcançar taxas de sequestro de carbono comparáveis às do reflorestamento e restauração florestal – 6,9 toneladas por hectare por ano, em média – com o benefício extra de produzir alimentos. A experiência da Fazenda da Toca, também foi retratada como um estudo de caso do Projeto Verena, do WRI. Mais recentemente a Fazenda da Toca se lançou em uma nova frente com a start-up Rizoma, voltada a recuperação de áreas de pasto degradadas por meio da implementação de sistemas agroflorestais.

Foto: Modelo de agrossilvicultura multiestratificada na Fazenda da Toca, em Itirapina (SP), Brasil. Divulgação Fazenda da Toca.

Outro caso emblemático vem da Costa Rica, que encontrou nas práticas regenerativas uma forma de diversificar sua economia, combinando crescimento econômico e ecológico. O país é modelo no mundo por ter revertido o processo de perda de cobertura florestal com a implantação de um programa nacional de pagamentos por serviços ambientais. Com isso, ampliou sua área de cobertura florestal original de 26% em 1990 para 52% em 2013. Essa bem sucedida recuperação florestal resulta da aposta no turismo de natureza e na implementação de práticas agroecológicas e sistemas agroflorestais de produção, com destaque para o café, considerado um dos melhores do mundo. Assim, a economia a Costa Rica registrou um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 69,5% entre 2013 e 2017, a maior expansão de toda a América Latina, de acordo com a Comissão Econômica Para América Latina (Cepal). A Costa Rica também detém o primeiro lugar no Happy Planet Index, que mede o bem-estar sustentável e “o quão bem as nações estão indo para alcançar vidas longas, felizes e sustentáveis”, nas palavras do New Economics Foundation responsável pelo índice.

Estamos em meio a uma enorme mudança cultural em resposta a desafios complexos como a crise climática. Além de oferecer uma das soluções mais custo-efetivas para reverter a mudança climática, as práticas de agricultura e pecuária regenerativas ajudam a restaurar solos; gerar renda no campo, diminuindo assim a pressão sobre as cidades e contribuindo para a segurança alimentar, hídrica e energética, resultando em maior resiliência tanto do ponto de vista ambiental, quanto social e econômico.

Juliana Lopes, Fundadora da PulsarCom e Roberto Strumpf, sócio diretor da Pangea e consultor associado da PulsarCom.

Quer saber mais sobre práticas de agricultura e pecuária regenerativas? Escute o podcast da Pulsar sobre o tema com Roberto Strumpf, diretor executivo da Pangea Capital.

[1] FAO, 2019. Disponível em: http://www.fao.org/fileadmin/templates/solaw/files/thematic_reports/TR_04b_web.pdf

[2] https://www.thedailybeast.com/can-carbon-farming-reverse-climate-change

[3] https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2019/08/4.-SPM_Approved_Microsite_FINAL.pdf

[4] https://www.drawdown.org/solutions/food

[5] A agricultura de conservação foi desenvolvida no Brasil e na Argentina na década de 1970 e segue três princípios fundamentais: a) minimizar a perturbação do solo: ausência de arado, os agricultores semeiam diretamente no solo; b) manter a cobertura do solo: os agricultores deixam resíduos da colheita após a colheita ou cultivam plantas de cobertura; c) gerenciar a rotação de culturas: os agricultores mudam o que é cultivado e onde. Disponível em: https://www.drawdown.org/solutions/food/conservation-agriculture

Meta para que te quero?

Metas com base na ciência servem como bússola para guiar os negócios rumo a uma nova economia, em que o carbono se torna uma métrica cada vez mais relevante para a competitividade.

Por Juliana Lopes e Roberto Strumpf*
Publicado originalmente em Pangea Capital

Estamos dirigindo em uma estrada tortuosa e com chuva quando, de repente, recebemos pelo rádio a informação de que logo adiante uma ponte se rompeu, formando um verdadeiro precipício. Se ainda nos resta algum instinto de autopreservação, a opção mais razoável seria buscar uma rota alternativa. Certo? Porém, em se tratando de mudanças climáticas, decidimos desligar o rádio ou, no máximo, reduzir um pouco a velocidade.

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), as emissões de gases de efeito estufa tiveram um aumento de 41% desde 1990. Seguindo essa trajetória, projeções apontam que as temperaturas globais podem aumentar entre 3,7°C e 4,8°C até o final deste século (2100) levando-nos a uma mudança climática perigosa e irreversível.

Para frear o aumento da temperatura entre 1,5°C e 2ºC, limite considerado seguro, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC adverte que, até 2030, as emissões devem cair 45% em relação aos níveis pré-industriais. Além disso, o mundo deverá alcançar em 2050 uma neutralidade de carbono, ou seja, terá que deixar de emitir mais CO2 do que se retira da atmosfera.

Esse cenário exige transformações “rápidas” e “sem precedentes”, nas palavras dos cientistas do IPCC em seu último relatório, em setores-chave da economia como energia, transporte, indústria e uso da terra. Diante desse alerta da comunidade científica, cabe aos negócios adequarem suas estratégias para uma lógica regenerativa.

Uma nova economia pode – e deve – surgir a partir de soluções que removam e sequestrem mais carbono da atmosfera do que emitem. Não seria apenas uma economia de baixo carbono, pois desacelerar emissões não é mais uma opção razoável, o que se propõe é uma economia regenerativa, que gera valor ao mesmo tempo em que remove carbono da atmosfera.

No relatório Our Carbon Future, os especialistas da Volans argumentam que tais soluções ajudariam a pavimentar o caminho para reverter o aquecimento global e, simultaneamente, gerar prosperidade econômica para as pessoas. Segundo eles, enfrentar este duplo desafio requer uma mudança radical na forma como usamos o carbono para criar valor econômico.

Nessa nova economia, o carbono se torna uma métrica positiva de produtividade, abrindo espaço para uma série de inovações e oportunidades de negócios.

Esse relatório destaca uma série de exemplos concretos de negócios que representam essa nova economia. Cita o Projeto Drawdown que mapeou 80 soluções que juntas elas reduziriam o CO2 atmosférico em mais de 1.000 gigatoneladas. Estima-se que as economias dessas soluções (distribuídas ao longo de 30 anos) superariam os custos em quase US$ 45 trilhões – equivalente a uma taxa de retorno de aproximadamente 150%.

Alguns exemplos exitosos incluem um protótipo de carpete desenvolvido pela Interface chamado Proof Positive, que incorpora carbono derivado de plantas, removendo assim 1,85 quilos  de CO2 da atmosfera por metro quadrado instalado. Outro caso é o da Covestro, que desenvolveu um polímero à base de CO2 chamado Cardyon, esse produto químico é utilizado em móveis e colchões estofados e tem até 20% da sua constituição vem do CO2.

Diante desse cenário, a adoção de metas baseadas na ciência é uma forma de comunicar que os esforços de mitigação de uma empresa estão alinhados à ambição do Acordo de Paris e também demonstrar que os negócios estão preparados para essa nova economia.

Pensando nisso, a iniciativa global Science Based Targets (SBT), se propõem a discutir metodologias e abordagens para uma meta baseada em ciência e reconhece às empresas que já se comprometeram publicamente com esse nível de ambição.

As metas funcionam como uma bússola para que as empresas entendam onde estão, para guiá-las ao seu destino e para verificarem se estão no curso correto durante sua jornada rumo a uma nova economia.

Juliana Lopes, Fundadora da PulsarCom e Roberto Strumpf, Diretor da Pangea Capital e consultor associado da PulsarCom.

Uma nova mineração é possível?

O setor de mineração precisará articular-se para manter a sua licença social para operar, assim como fez o setor químico após grandes tragédias nas décadas de 80 e 90

Por Jacques Demajorovic* e Juliana Lopes**

Publicado originalmente em Página 22

As estruturas fragmentadas e altamente hierarquizadas das organizações acabam por intimidar e até desresponsabilizar os indivíduos de tomar decisões difíceis, mas necessárias para a resiliência dos negócios, da economia e da sociedade. Essa característica leva, em casos mais extremos, a grandes tragédias resultantes de omissões em série.

Isso explica em parte porque em um intervalo de menos de quatro anos, o Brasil testemunhou as duas maiores tragédias ambientais, sociais e econômicas na atividade de mineração. Primeiro com o rompimento da barragem de Fundão da mineradora Samarco, que tinha como acionistas a Vale e a BHP Billiton, em 5 de novembro de 2015. Em janeiro de 2019, testemunhamos o rompimento de outra barragem da Vale em Brumadinho, também em Minas Gerais, evidenciando que pouco se absorveu em termos de aprendizados desde a primeira tragédia.

Diante da repetição de episódios assim, o setor de mineração precisará articular-se para manter a sua licença social para operar, ou seja, a legitimidade junto às diferentes partes interessadas para realizar suas atividades. Sem essa licença social, a atividade de mineração fica sujeita a interrupções frequentes e a custos cada vez maiores que podem simplesmente fazer com que o negócio se inviabilize.

Dois importantes desdobramentos recentes dos casos de Mariana e Brumadinho corroboram com essa avaliação. No caso de Mariana, o processo de reparações por danos materiais e morais, movido pelo escritório anglo-americano SPG Law em favor dos atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão, ingressou na corte da Inglaterra e do País de Gales. Conforme noticiado na imprensa, o montante de reparações pode ultrapassar os 5 bilhões de libras (mais de R$ 24 bilhões, na cotação atual) a serem pagos pela BHP Billiton SPL – braço inglês da BHP Billiton, a controladora da mineradora Samarco ao lado da Vale. Aderiram à ação 240 mil pessoas, mil empresas, 24 municípios, representantes de igrejas católicas e evangélicas e a comunidade indígena Krenak. Se não houver acordo, a expectativa é de que o processo seja julgado até 2020 na corte de Liverpool.

Já em Brumadinho, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para investigar as causas da tragédia apresentou no dia 12 de setembro de 2019 seu relatório final e pediu o indiciamento de 13 pessoas por homicídio e lesão corporal com dolo eventual, entre outros crimes. O documento, aprovado por unanimidade pelos sete integrantes da CPI, será entregue à Polícia Civil e ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), autoridades encarregadas das investigações criminais. Entre os 13 apontados pela CPI como responsáveis pela tragédia, 11 são dirigentes ou funcionários da Vale. Também foi pedido indiciamento de dois engenheiros da Tüv Süd, empresa que assinou o laudo de estabilidade de barragem.

O mundo segue sedento por minérios, tendência puxada, sobretudo, pelo aumento do consumo de eletroeletrônicos, especialmente na Ásia. Mas o simples argumento de crescimento econômico e geração de empregos já não se apresenta como contrapartida razoável frente aos altos riscos a que diferentes partes interessadas são submetidas pela atividade de mineração.

O setor precisará repactuar o seu contrato social para assegurar a perenidade dos seus negócios. Portanto, o momento é oportuno para a atividade de mineração se organizar com o intuito de construir protocolos para gestão de riscos, a exemplo do que aconteceu no setor químico na década de 90 após grandes tragédias como Bhopal, na Índia, em 1984. Esse episódio foi marcado pelo vazamento em uma indústria de pesticidas da Union Carbide, matando, oficialmente, mais de 3 mil pessoas e contaminando por décadas o entorno da fábrica.

Os impactos desta tragédia resultaram em maior controle e regulação do setor químico. Bhopal marcou também o nascimento de um movimento mundial da indústria química chamado Responsible Care ou Atuação Responsável no Brasil. Criado em 1984, pela Associação Canadense de Empresas Químicas, hoje se espalha por 53 países, com o objetivo de melhorar voluntariamente o desempenho ambiental, de saúde e segurança, além do diálogo com a comunidade.

Longe de resolver todos os problemas socioambientais da atuação do setor químico, o programa promoveu um grande avanço na gestão de indústrias químicas signatárias desta iniciativa no que se refere à melhoria de segurança e desempenho ambiental nos processos produtivos. Assim, um cenário parecido poderia ser seguido no setor de mineração. Não por coincidência, 20 anos depois do lançamento do Responsible Care no Canadá, a Associação de Mineradoras Canadenses lançou em 2004, o Towards Sustainable Mining, um conjunto de ferramentas e indicadores, auditados por terceira parte, visando assegurar a gestão efetiva de riscos em atividades minerais.

Uma articulação setorial desse tipo, mas em âmbito mundial, ajudaria empresas de mineração a superar as armadilhas do pensamento de curto-prazo, tendo em vista que os principais players do setor são empresas de capital aberto e que, portanto, prestam contas de seu desempenho financeiro trimestralmente. Com a cabeça imersa em planilhas e telas de computador por onde passam transações bilionárias, executivos, conselheiros e investidores se desconectam da realidade sem se dar conta muitas vezes em como elas afetam a vida de milhares de pessoas e podem comprometer a perenidade do próprio negócio.

Naturalmente, não se pode apostar todas as fichas nas iniciativas voluntárias das empresas. A experiência internacional mostra, como no caso do Responsible Care, que quanto mais avançada e rígida a legislação ambiental e a capacidade de punição por parte do Estado de empresas e seus gestores, maior será o aprendizado e alcance das incitavas voluntárias de empresas nas áreas de segurança e meio ambiente.

Hoje, quem ousa subverter a lógica do curto-prazo acaba penalizado. Mas por pior que seja a mensagem, matar o mensageiro nunca é a solução. Os questionamentos dos conselheiros, colaboradores, comunidades, investidores e demais stakeholders precisam ser acolhidos, pois esse rol ampliado de visões contribui com a gestão de riscos e oportunidades, proporcionando maior resiliência ao negócio. Isso nada mais é do que boa gestão e deveria ser o foco do setor de mineração a partir de um amplo debate com a sociedade sobre as tragédias que protagonizou e assim tirar aprendizados para evitar que se repitam, bem como construir uma visão sobre a mineração que se quer para o futuro e como chegar lá.

*Jacques Demajorovic, professor-doutor do programa de pós-graduação em administração do Centro Universitário FEI e Coordenador do Grupo de Pesquisa em Licença Social para Operar.

**Juliana Lopes, fundadora da PulsarCom, mestre em administração de empresas pelo Centro Universitário FEI e membro do Grupo de Pesquisa em Licença Social para Operar.

Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?

Uma visão crítica sobre mais de uma década de discussão relacionada a indicadores Ambientais, Sociais e de Governança

Por Juliana Lopes

Quem tem mais de 30 anos deve lembrar-se da pergunta que dá título a este artigo e se consagrou na propaganda de uma marca de bolachas brasileira nos anos 90. Nas discussões sobre integração de questões ASG — Ambientais, Sociais e de Governança o chamado dilema Tostines em alusão à frase com que abrimos este texto por muito tempo intrigou analistas. Há os que defendem que as companhias melhor posicionadas no mercado acabam sendo por consequência as que mais investem em questões relacionadas à sustentabilidade. Mas há quem defenda que na verdade são as empresas mais sustentáveis as que oferecem a melhor relação de risco x retorno para investidores justamente por integrarem questões ambientais, sociais e de governança a sua estratégia.

A primeira vez que me deparei com essa discussão foi em 2008 em uma das minhas primeiras incursões jornalísticas no campo da sustentabilidade. Ricardo Voltolini da Ideia Sustentável me confiou a tarefa de escrever uma matéria especial para a Revista de mesmo nome com o intrigante tema: quanto vale ser sustentável?

Fiz um mergulho nos principais indicadores de sustentabilidade, Dow Jones Sustainability Index (DJSI), Índice de Sustentabilidade Empresarial, GRI, CDP e entrevistei pelo menos 20 especialistas, entre os quais Bob Willard, autor do livro The Sustainablity Advantage, e fundador do Future-Fit Business, que propõe indicadores orientados ao futuro.

Willard fez o que parecia óbvio, mas ninguém até então tinha ousado tentar. Não precisou criar uma nova teoria econômica nem mesmo desenvolver um sistema específico para mensurar o valor da sustentabilidade. Avaliou o impacto financeiro do investimento em sustentabilidade em questões-chave para o negócio e conseguiu demonstrar a correlação financeira da sustentabilidade a partir do aumento da reputação e da produtividade, valorização da marca e das ações, diminuição dos riscos do negócio, maior facilidade de financiamentos e atração/retenção de talentos entre outros benefícios associados a um comportamento responsável. Assim concluiu que, ao incorporar a sustentabilidade na estratégia do negócio, uma grande empresa pode alcançar até 38% a mais de lucro e uma pequena empresa, até 66%, no curto e médio prazos.

Passados mais de 10 anos, me vejo ao lado dos amigos veteranos no campo da sustentabilidade, avaliando essa última década. Apesar de todos os nossos esforços, ainda impera o modo tradicional de se fazer negócios (business as usual) e têm se multiplicado casos que demonstram o alto custo de não integrar questões ambientais, sociais e de governança à gestão.

Tendo a achar que ficamos presos ao dilema Tostines e nos distanciamos do que é realmente substancial, ou seja, transformar os negócios e a economia para livrar-nos de uma extinção programada da nossa espécie e de muitas outras mais.

Importantes pensadores da sustentabilidade também têm nos convidado a fazer uma avaliação dos indicadores de sustentabilidade construídos na última década. Estariam eles contribuindo para transformação dos modelos de negócios no sentido de uma economia regenerativa, mais próspera e justa?

Recomendo a leitura do artigo de John Elkington, criador do tripé da sustentabilidade, em que ele pede o recall do conceito. Também os convido a ler a análise da escritora Lorraine Smith em artigo intitulado ESG Data is Like Less Wife Beating.

Tragédias recentes como a de Mariana e Brumadinho me fazem crer que o problema não está na falta de métricas. Afinal, como Willard demonstrou é possível traçar a correlação financeira com questões de sustentabilidade, desde que isso seja prioritário para as empresas e seus stakeholders.

Em uma análise das atas do Conselho de Administração da Vale, Eduardo Carone revelou que existiam 18 menções a riscos cambiais e zero menções a riscos ambientais. Esses riscos existiam, mas foram ignorados, não por falta de métricas para mensurá-los. A meu ver as estruturas fragmentadas e altamente hierarquizadas das companhias acabam por intimidar e até desresponsabilizar os indivíduos de tomar decisões difíceis, mas necessárias para a resiliência dos negócios, da economia e da sociedade.

Com a cabeça imersa em planilhas e telas de computador por onde passam transações bilionárias, executivos, conselheiros e investidores se desconectam da realidade sem se dar conta muitas vezes em como elas afetam a vida de milhares de pessoas e podem comprometer a perenidade do próprio negócio.

Hoje, quem ousa subverter a lógica do curto-prazismo acaba penalizado. Mas por pior que seja a mensagem, matar o mensageiro nunca é a solução. Os questionamentos dos conselheiros, colaboradores, comunidades, investidores e demais stakeholders precisam ser acolhidos, pois esse rol ampliado de visões contribui com a gestão de riscos e oportunidades, proporcionando maior resiliência ao negócio, à economia e à sociedade como um todo. Isso nada mais é do que boa gestão.

Juliana Lopes é jornalista e gestora ambiental, fundadora da PulsarCom.